
Em tempos de polarização, rupturas relacionais e dificuldades cada vez maiores no diálogo, falar sobre conflitos na igreja não deve ser um tema secundário. Pastor há 35 anos, professor e autor do livro Conflitos na igreja: como sobreviver aos conflitos e desenvolver uma cultura de paz, Ernst Werner Janzen, tem dedicado parte de sua caminhada ministerial a ajudar igrejas a desenvolverem uma cultura de paz sem ignorar a justiça e a responsabilidade.
Nesta entrevista, ele fala sobre cultura de paz, poder, perdão, polarização e o desafio de preservar a unidade cristã em tempos de tensão dentro e fora das igrejas.
O senhor poderia falar um pouco sobre você e sua vida ministerial?
Sou pastor há 35 anos de uma igreja que Deus me permitiu implantar em São José dos Pinhais, no Paraná, a Igreja Evangélica Irmãos Menonitas. Sou pai de família, tenho três filhos casados, três netinhas e uma quarta a caminho. Além do pastoreio, leciono na Faculdade Fidelis e em algumas outras instituições de ensino, normalmente em módulos relacionados à resolução de conflitos.
Como o senhor despertou para a escrita do livro Conflitos na Igreja?
Tive o privilégio de fazer um mestrado na área de pacifismo e resolução de conflitos. O primeiro livro que escrevi surgiu a partir de um desafio dos meus professores. Na época, em 2004, praticamente não havia literatura sobre esse tema — existia apenas um livro, com uma perspectiva mais filosófica do que prática.
Então escrevi Conflitos: Oportunidade ou Perigo. Durante o processo, percebi que havia muitas questões mais específicas relacionadas aos conflitos dentro da igreja. Acabei separando o conteúdo em dois livros: o primeiro mais voltado aos conflitos interpessoais, e o segundo ao contexto da comunidade cristã. Foi mais ou menos por aí.
A descrição do livro pergunta: “Como ficaria a igreja se todos enfrentassem conflitos como você?”. Que tipo de diagnóstico essa pergunta revela sobre o nosso coração e nossa maturidade cristã?
Essa pergunta é, na verdade, uma provocação para reflexão. Porque, obviamente, quando reagimos de acordo com o que a Bíblia nos ensina, isso é bênção. Por outro lado, quando agimos pela carne, começamos a ver coisas que não são tão boas acontecendo dentro da igreja.
A ideia era justamente provocar uma reflexão sobre a nossa conduta em meio aos conflitos.
Muitas igrejas confundem paz com ausência de confronto. Qual a diferença entre uma igreja pacífica e uma igreja apenas silenciosa ou reprimida?
Essa pergunta é muito profunda. Talvez eu até formulasse de outra maneira. Os anabatistas eram conhecidos como pacificadores, mas entendiam isso de forma limitada. Ser um pacificador não significa ficar em silêncio, fugir dos conflitos ou assumir uma postura apenas reservada.
Uma igreja pacificadora é ativa. Ela é proativa na busca pela paz. Vai utilizar ferramentas de justiça restaurativa, ajudar as pessoas a encontrarem reconciliação e ensinar uma cultura de paz.
Quando enfrentamos os conflitos, lidamos com eles e aprendemos a administrá-los da forma como Jesus nos ensina, aí sim nos tornamos uma igreja da paz.
Pela sua experiência pastoral e acadêmica em resolução de conflitos, existem conflitos mais comuns dentro das igrejas? Caso sim, quais costumam ser mais destrutivos?
Infelizmente, talvez o conflito mais comum hoje, independentemente da denominação, esteja relacionado ao poder. Em alguns aspectos isso é sutil, mas acaba provocando muitos conflitos.
A partir daí surgem outros problemas movidos pela natureza humana: egoísmo, orgulho e até a dificuldade de amar o irmão, especialmente quando ele pensa ou age de maneira diferente.
A grande maioria dos conflitos que caminham para um lado destrutivo está ligada ao poder. O poder em si é algo bom, mas precisa ser administrado de forma equilibrada. Quando isso não acontece, quando alguém começa a tratar o outro de cima para baixo, uma sucessão de conflitos acaba explodindo e escalonando, como vemos em muitos contextos.
O senhor acredita que alguns conflitos são necessários para o amadurecimento da igreja? Como diferenciar conflitos que produzem crescimento daqueles que apenas adoecem a comunidade?
Sim. Os conflitos são mais do que necessários, porque geram amadurecimento: crescimento na comunicação, na avaliação e na análise das circunstâncias do dia a dia da igreja.
Eu sempre vejo o conflito como no título do livro: Conflito: oportunidade ou perigo. Ele pode se tornar uma oportunidade de crescimento, restauração e alinhamento.
Mas, quando o conflito entra na lógica de alguém precisar ganhar e o outro perder, ele se torna destrutivo e adoece a comunidade.
Uma igreja sadia não é uma igreja sem conflitos. Muito pelo contrário. É uma igreja que tem conflitos, mas sabe tratá-los e resolvê-los de forma construtiva, colaborativa e à luz dos ensinamentos de Jesus.
Em muitos contextos cristãos, pessoas feridas acabam sendo incentivadas apenas a “perdoar e seguir em frente”. Como desenvolver uma cultura de paz sem ignorar justiça, escuta e responsabilidade?
Essa ideia de “perdoar e seguir em frente” precisa de uma fundamentação bíblica mais ampla. Quando falamos de perdão em situações de conflito, precisamos olhar para um tripé: confissão, arrependimento e, em muitos casos, restituição.
A confissão é necessária. O arrependimento também, para alinhar como as coisas serão dali para frente. E, em algumas situações, existe a necessidade de restituição — material, quando for o caso, e, em outras circunstâncias, pela graça de Deus.
Tudo isso faz parte para que o perdão aconteça de forma completa. O perdão é um processo. Existe, sim, a decisão momentânea de perdoar, mas até que esse perdão se complete, há um caminho a ser percorrido. E isso envolve justiça, comunicação e responsabilização.
Em tempos de polarização política, disputas teológicas e debates nas redes sociais, quais práticas a igreja precisa recuperar para não perder seu testemunho de unidade?
Essa é uma pergunta bem desafiadora, especialmente no tempo em que estamos entrando agora, pensando nas eleições.
Mas, numa resposta curta e objetiva, eu diria: precisamos voltar aos dois grandes mandamentos que Jesus nos deixou: amar a Deus e amar o próximo, mesmo que ele pertença a uma bandeira ou partido completamente diferente do nosso.
Creio que, quando começamos a agir com amor, independentemente daquilo que a pessoa pensa ou expressa, caminhamos na direção do que Jesus espera de nós e passamos a ter um ambiente de paz, apesar das divergências.
O grande problema é que muitas pessoas não conseguem separar o problema da pessoa. Podemos divergir em ideias e posições, mas continuar amando o irmão. Esse é o grande desafio. Quando tudo é colocado “no mesmo saco”, os relacionamentos se fragilizam e a unidade da igreja começa a correr riscos.
Se o senhor pudesse deixar uma única orientação para líderes e membros que hoje vivem conflitos intensos dentro da igreja, qual seria?
Agir com amor. E eu diria mais: permitir que o Espírito Santo esteja tão presente em nós que o fruto do Espírito se manifeste também nas situações de conflito.
Que consigamos agir com amor, alegria, paz, paciência, bondade e domínio próprio. Quando estamos cheios do Espírito Santo, as coisas caminham nessa direção.
Creio que nossa liderança precisa ter discernimento para entender o que é agir pela carne e o que Jesus espera de nós como discípulos, para que possamos viver a partir da presença dele, através do Espírito Santo e do fruto do Espírito.
O Pr. Ernst Werner Janzen estará conosco na Cristã Evangélica Metropolitana durante a Conferência Teológica 2026, nos dias 30/05, às 19h, e 31/05, às 9h e 19h.
Será uma oportunidade de refletirmos com maior profundidade sobre um tema tão relevante para a vida da igreja e nossos relacionamentos.

Perguntas e texto por Laila Gisele
Projeto: Jornal ICE Metropolitana